O sono do tetra


Em tempos tão acelerados, não há ser humano que consiga passar ileso a um cocktail de medicamentos que segure a batida dos dias. Sendo assim, eu me declaro mais um desses que precisa regularmente de sua Losartana Potássica, do Hidrocin, do Dorflex, do Montelair, do Naldecon, do Allegra D. Porém, sei que há o revés pelo uso de alguns desses remédios. O efeito mais recorrente é o sono, desses que faz com que se durma de pé ou em uma posição que exija esforço ao contorcionista. É uma troca. Sei dos riscos, mas tenho que respirar, desacelerar e sentir a cabeça livre de pontadas. 

Em uma dessas ocasiões em que fui envolvido por uma sonolência irresistível, eu me rendi incondicionalmente, ao contrário de batalhas de minutos que travei no passado entre o piscar constante de olhos e a negação. 

Quando ultrapassei a névoa da realidade, eu me vi em um estádio grande, diante de milhares de pessoas. Mascava um chiclete bem gasto de menta. Sem saber bem por quê, o meu olhar mirava uma partida de futebol, onde estavam dispostos jogadores que envergavam os uniformes do Brasil e da Itália. Só me toquei sobre o que estava acontecendo quando vi Junior puxar a bola para o meio e tocar para Falcão. O Rei de Roma pegou a bola, enganou a marcação e bateu no canto de Dino Zoff. Em pleno Sarriá, pousei no segundo gol do Brasil, o de empate contra os europeus, na Copa de 1982. No meio da comemoração, o auxiliar Valdir de Moraes olhava para a minha cara e perguntava, “E aí, Telê, o que vamos passar de orientação agora?”. Titubeei por um instante e vi que o auxiliar falava comigo. Me belisquei. Realmente era inacreditável. Eu era Telê Santana naquele instante. 

E tive uma epifania enquanto os jogadores ainda comemoravam. Como já havia colocado Paulo Isidoro no lugar de Serginho, eu só tinha direito a mais uma substituição. O empate nos colocava na final. Aos berros, eu chamei Isidoro e lhe disse que parasse literalmente de jogar e que escoltasse Paolo Rossi. Era só o que importava a partir dali. Perplexo, Valdir de Moraes me olhou como se estivesse me vendo pela primeira vez. E, de certa forma, estava mesmo. O antijogo não era uma característica do corpo que eu assumi. Olhei para o banco e pedi a Edinho que aquecesse. Passei a ele a instrução para atuar mais fixo na lateral-esquerda, no lugar de Junior. A ordem era não avançar muito. O Capacete iria para o meio, atuar como mais uma opção de meia de criação. A indicação era para que Zico atuasse avançado com Éder. 

Isidoro cumpriu muito bem o papel de sombra de Rossi. Em compensação, o jogo seguiu sem lances empolgantes e sem sustos para os dois lados. Embora a parte física dos italianos fosse mais inteira, o ferrolho verde e amarelo respondia bem aos meus comandos. Aos 47 minutos, quando o povo todo já comemorava a passagem de fase, Cabrini escapa pela esquerda e faz um cruzamento sinuoso. Valdir Peres sobe muito e faz uma acrobacia para segurar a bola. O problema é que, mais preocupado com o efeito plástico, Peres acaba por se desequilibrar, tombar e soltar a bola. A pelota sobra limpa para Rossi para empurrar para o gol e decretar nossa eliminação. 

Como se tratava de um sono da tarde, eu acordei com os olhares perplexos de minha esposa e minha filha. Xinguei o arqueiro a plenos pulmões. E despertei com uma lição valiosa do mundo de Morfeu: não adianta ludibriar o destino nem nos sonhos. Aquela fantástica seleção brasileira estava mesmo destinada a ficar no quase ainda que eu me amalgamasse em Felipão e Parreira. Não importa. Ainda que tenha sido sonho, eu continuarei dizendo que Gentile deixou Zico nu na frente do juiz e que o jogo foi roubado. E outra: pena que eu não tenha “invadido” Telê na escalação, pois assim o Serginho não teria ficado nem no banco. E digo mais: talvez eu falasse um pouquinho sobre bolas defensivas cruzadas para o Toninho Cerezo. E acrescento mais ainda: talvez eu pare de tomar alguns dos meus remédios.

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