Confessionário #1 - Miguel Marques
Miguel Marques é um comediante com mais de vinte anos de estrada. Começou divertindo seus amigos no colégio e no clube onde jogava Futsal como goleiro. O humor sempre foi uma ferramenta indissociável de sua personalidade. Nos dias de hoje, o homem apelidado por seus pares como “O Gigante da Comédia” integra o staff da Rádio Tupi, campeã de audiência com os programas do Antônio Carlos e Patrulha da Cidade, lugares onde ele desfila seu talento.
O Gigante da Comédia me cedeu uns tostões de seu tempo para falar de comédia, trabalhos e política. Acompanhem!
1. A comédia é um dom inato?
Eu acho até que a pessoa pode até ter uma predisposição para fazer comédia, um DNA engraçado pela essência dela. E não necessariamente ela pode ser desenvolvida como em qualquer outra técnica. Tudo tem uma cartilha, tudo tem uma régua, e o humor é a mesma coisa, a mesma nuance. Tem coisas que você sabe que vão ser engraçadas e outras que são do improviso, de tanto você fazer. Não necessariamente todas as piadas vão ser engraçadas. A coisa é você se achar. Você abrir a técnica. Isso eu domino, faço bem. E não acho que seja um dom genético e espiritual. Tudo dá pra desenvolver e aprender. O cara mais comunicativo e mais estudioso. A comédia é você entender a realidade e dar graça àquele drama que a pessoa sofre e tirar um sarro da situação.
2. Uma piada tem regras pétreas de paternidade?
Às vezes, você vive uma situação engraçada, coloca o tom da piada, a situação real, dá a origem. Ou você vê uma coisa engraçada que outra pessoa viveu e desenvolve a piada. Eu já cansei de dar piadas para os colegas, por entender que tinha mais a ver com a realidade deles. Sempre tem um criador e criatura. E tem coisa que já está pronta. Mas não existe dono da piada. Não pode é plagiar, copiar o conteúdo do colega todo. Vai num show de Chico Anysio, do Tirulipa e copia tudo dele e faz igual. Mas você pode vagar pelas ideias deles e de qualquer outros, Seinfield, Nelson Freitas… Pegar a origem e desenvolver com a sua ótica. Não necessariamente vai ser cópia. Acho que piada tem autor sim. Mas a ideia não. A piada, o conteúdo tem dono. Ideias se repetem. Às vezes um copia o outro até sem querer.
3. Um humorista tem pai e mãe na hora da feitura de piadas?
Eu acho que no palco, durante a zoação, você pode zoar todo mundo, tudo. Toda piada tem uma vítima, como diz o Danilo Gentili. Tem temas que não gosto de fazer, não seria legal fazer, porque dá problema mesmo. Eu livraria assim essas coisas de deficiência física, humor negro. Humor negro para mim seria uma coisa muito difícil. Mas piadas de gordo, de alto, de magro, de baixo, de português, de bicha, de loira... Desde que no contexto não ofenda ninguém específico, não seja uma coisa apelativa. Eu particularmente não gosto de escolher um bucha para sacanear na platéia, mas, se o cara está entrando em uma de atrapalhar o show, e ser mais engraçado que o artista, eu vou dar uma constrangida para não atrapalhar o meu trabalho.
4. Você faz shows de comédia há mais de vinte anos. Já aconteceu alguma coisa inusitada na interação com a plateia?
Já aconteceram muitas coisas engraçadas, principalmente quando eu fazia abertura do Paulinho Gogó (personagem do ator e diretor Maurício Manfrini). No show tinha uma mulher com uma risada muito esquisita e estranha. E ela ria fora do tempo de todo mundo. E estava atrapalhando as piadas, as pessoas estavam rindo dela. Aí eu avisei ao Paulinho, e ele também percebeu a mesma coisa, e ele deu uma zoada na mulher tão forte que a mulher ficou com vergonha de rir. Mas ela não ria de maldade, ela ria fora de tempo mesmo. E a outra coisa que acontecia muito comigo, que parece que eles me adoram: sentar bêbado na primeira fileira. Bêbado de nível coma alcoólico. O cara que vem atrapalhar mesmo.
Uma outra situação engraçada que aconteceu foi com uma senhora, em um show no restaurante. Ela levantou o braço e falou que tinha que ir embora, porque ela ia perder o ônibus dela. E foi muito engraçado mesmo. A mulher só faltou pedir licença e desculpa para ir embora. O show ficou parado, e eu conversando com ela muito tempo, orientando onde ela poderia pegar a condução. E todo mundo rindo. E eu dizia para o público, “Não atrapalhem que estou conversando com a moça. Esperem aí que ela vai pegar o ônibus agora”
5. Em época de politicamente correto, um personagem como Nem Lamatraca já causou algum tipo de problema para você?
Eu tinha um quadro no Clóvis Monteiro (radialista) que eu falava mal de todo mundo. Zoei o Flamengo, o Fluminense... Aí no aniversário de São Januário, eu zoei o Vasco. E fui parar em assunto de grupo de whatsapp de vascaíno. Deu um problema. E falei: brinco com todo mundo, você está sendo injusto. E no palco, nem todo mundo conhece o Lamatraca. E muita gente ficava magoada com a zoação com velho, idoso, criança, com pobre. Acaba levando para o coração. Mas o personagem é preconceituoso. É uma sátira. E a pessoa precisa saber diferenciar as coisas, entendeu?
6. Em uma entrevista você citou a timidez como um traço de sua personalidade, como você venceu essa característica (ou não superou)?
Ainda sou tímido. Eu diria que eu sou um tímido articulado hoje em dia. Eu tenho vergonha de câmera. Deve ser por isso que eu não posto tantos videos. Eu me cobro muito sobre tudo e isso me atrapalha bastante. Eu ainda nao sei lidar 100% com a minha timidez. E é uma batalha diária. E acho que por isso eu faço sucesso no rádio do que em qualquer outro veículo, por causa da minha timidez mesmo. Sou muito tímido, muito introspectivo.
7. O que qualifica alguém para a posição de imitado?
Geralmente é o grau de importância e o ambiente em que você está. Na Rádio Tupi, eu adoro imitar o Gerson Canhota (ex-jogador e comentarista), principalmente com ele presente.
Eu, infelizmente, não desenvolvi muito esse dom da imitação. Não sei se perdi a paciência e o timbre. Não consigo imitar tão bem quanto antes. Não sei se tem a ver com o tom ou a paciência. Existe gente muito melhor do que eu imitando pessoas. Mas faço no meu show sim, para manter o ritmo do diferencial, entendeu?
8. E quem são esses grandes imitadores?
Carioca, Beto Hora, Robson Bailarino, Tom Cavalcante, Pedro Manso e Marcelo Adnet.
9. Você rejeita alguma forma de fazer humor?
Humor circense. Eu rejeito por não saber fazer (risos). Cambalhotas, acrobacias, caretas… E humor negro: por não gostar. É uma piada que constrange, humilha e gera problema.
10. Há um homônimo seu que é um violeiro gaúcho. O que fazer se você chegar em um show para fazer piadas e tiver que tocar moda de viola do sul?
Eu vi. Ele é o Miguel Marques mais famoso, segundo o Google. Eu teria que pedir desculpas e contar piadas de gaúcho. E falar que a culpa é do contratante que trouxe o Miguel Marques errado.
11. E como se chega no show errado?
O dono da festa adora o seu show, o seu trabalho. Detalhe: só quem gosta é ele. Os outros 100, 300 convidados estão lá para beber, comer, dançar e se divertir. Geralmente, este tipo de evento, o comediante vai para se ferrar mesmo. E acontece muito. Eu já saio derrotado de casa. E vou pra ganhar o dinheiro e ir embora. Moralmente você vai destruído, porque sabe que vai se ferrar. A chance de fazer um sucesso em um aniversário de um desconhecido é muito pequena. Acontece muito do contratante levar uma coisa achando que é outra. Um evento de uma farmácia, inauguração da loja do cara, aí ele quer que você faça uma divulgação, que faça uma piada, mas ali não é ambiente para aquilo.
12. Quais os benefícios de ter o rádio como veículo de comunicação?
Com o rádio, eu consigo chegar a pessoas que eu jamais teria contato. Tanto na forma artística quanto no poder público. Eu tenho mais facilidade de conseguir uma internação, encaminhar um amigo passando dificuldade para um doutor, fazer um apelo de violência, disparar um SOS de um problema em uma rua na Baixada Fluminense. Com esse elo das redes sociais junto ao rádio, ao mesmo tempo, eu consigo informações de testemunha de casos naquela hora em que estou no programa. Eu mesmo, aqui em Mesquita, entrei em contato com a Rádio Tupi, para comunicar uma explosão em um Banco do Brasil. A velocidade do rádio me possibilita muitas coisas. O acesso a políticos, às autoridades, e a velocidade da informação, coisa que eu não conseguiria sem a mídia ao meu lado. E isso é bastante positivo. Além de divulgar o meu trabalho, e divulgar o meu show. E ajuda neste aspecto.
13. Já sonhou com o Antônio Carlos (radialista veterano da Rádio Tupi) narrando alguma viagem onírica sua?
O mais engraçado disso é que eu era pequeno, criança, ouvia a Rádio Globo, o Antônio Carlos, e era uma coisa até então muito distante. E trabalhar no programa dele, é engraçado isso. Ele não suporta que você fale de morte e de doença. Ele corta e muda o assunto. E falar que ele é velho, ele não aceita (Nota do Editor: ele tem 83 anos). Dizer “É uma honra trabalhar no seu programa, eu o acompanho desde que eu tinha 15 anos”. Ele fica puto. E era pra ser somente um elogio. Quando eu conheci o Garotinho, eu relatava, “pô, Garotinho, me amarrava em imitar você nas peladas, na Atlética Tijuca. Só que o Garotinho fica lisonjeado. Ele não consegue se enxergar velho, ele se enxerga influente. É essa diferença entre eles. O Antônio Carlos se sente depreciado; Garotinho, valorizado.
14. Seus amigos de infância sempre apresentam os mesmos relatos de você imitando figuras públicas na infância. Esse tipo de plateia o impulsionou de alguma maneira para o que você realiza hoje?
Me impulsionou porque eu sempre fui tímido, e o grande dilema do artista e do comediante é a transição do cara engraçado para o profissional de humor. Você sobe de nível, é outro patamar e acontece isso. Até os próprios amigos falam: o cara está lá, conseguiu. Motivou sim, impulsionou sim. Foi esse amigo que me buscou para imitar, que reuniu a galera e falou que eu estava indo bem. E tem o lado bom que é a força da plateia meio sem querer. E o lado ruim é que não tem identidade. Você era uma voz que imitava. E não tinha essência. A pessoa não gostava de você pelo que você era, gostava pelo que você fazia.
15. Um dos seus assuntos prediletos é a questão da polarização política que o país vive. Como isso afeta sua vida profissional, em família ou com amigos?
Essa questão da polarização só mostra o quanto o ser humano em si, meus amigos, meus familiares e chegados estão egoístas, baseando opiniões no momento em que vivem, não no que acreditam.
E como as pessoas vivem em realidades em que não acreditam, ela pensa de acordo com os interesses. Por exemplo, minha namorada, meu marido, tem um baita emprego público na Petrobras. Se trocar o presidente, vai trocar tudo. Vai mudar a equipe, e ela pode ser mandada embora, e a pessoa vota por conveniência. Apoia um prefeito com o qual ela tenha entrada. Se ela tem um restaurante, ela sabe que um contrato para fornecer marmitas à prefeitura pode ser dela, que ela vai ganhar dinheiro. As pessoas não pensam no bem comum. O pensamento é por conveniência.
Paralelo a isso, a falta de educação do cidadão em entender todo processo político, eleitoral e uma má gestão se junta a tudo que eu disse anteriormente e faz uma grande cagada. O brasileiro não consegue entender o processo democrático. Ele acha que a vida é como o futebol: pode ter um craque que vai desequilibrar tudo sozinho. Até mesmo no time que tem um craque, se não tiver as estruturas, os poderes executivo, legislativo e judiciário atuando, não vai acontecer nada de positivo no time dele. É a mesma coisa na política. E essa cacetada de partidos só atrapalha.
16. Alguns comediantes migraram para a dramaturgia com o tempo. Você se vê fazendo algum papel dramático? Como acha que seria?
Não me imagino fazendo drama. Fiz uma vez na Companhia de Teatro Rosane Goffman, mas é uma energia muito ruim. Me sentia mal antes, durante e depois. Se eu puder escolher, não faço. Humor, pra mim, é ofício e entretenimento. Quando estou em casa, consumo filmes, futebol, resenhas esportivas, filmes mentirosos e de ação.
17. Você trabalhou no passado como garçom. Como foi exercer uma profissão que é muito digna mas que enfrenta uma indiferença significativa por falta de educação da população?
Foi o melhor momento de crescimento moral, por ter sido criado em uma família de classe média. Me deparei com o mundo real, que, na época, estava enfrentando a crise financeira do fim do governo Fernando Henrique Cardoso. E também vivia problemas familiares. Vi as dificuldades de emprego.
Convivi com garçons profissionais e pessoas de todos os tipos, de meio de comunidade, desde a época do curso de garçom e também presenciei a coisa surreal. Quando eu trabalhei como garçom, eu trabalhei no Bingo Botafogo e no Bingo da Praia, no período em que era legalizado, de 2002 até 2006. E eu vi os dois extremos. A realidade do pessoal desempregado, humilde, e vi os caras com muito dinheiro, os prefeitos e vereadores. Pessoas que gastavam o dinheiro público jogando em bingo. Empresários que lavavam dinheiro. Foi uma escola para a vida ali. Advogados, médicos famosos gastando fortunas em jogos. Foi um período muito doido. Apresentadores, comunicadores, artistas. Vi muita coisa legal neste período que eu trabalhei de garçom. Foi um aprendizado para gente ver como a mulher é tratada, como os artistas são tratados, e puxação de saco. E foi muito bacana. Muito legal. Foi um período de maior crescimento da minha vida.
E até a minha ascensão no próprio estabelecimento se deu pelo humor. O humor fez parte fundamental. Eu passei de garçom para pagador de prêmio pelas imitações e brincadeiras. E sempre me rendeu um bom atendimento, gorjetas, comunicação e mais interação. E comecei a tirar proveito do senso de humor para ganhar a vida nos eventos ou como garçom. E foi a minha defesa na comunicação com o cliente, na relação, e na vida pessoal também.
18. Qual a sua opinião sobre a colocação de que o riso é uma máscara que protege o palhaço e que, na verdade, ele chora quando está sozinho?
Eu aprendi muito com o Paulinho Gogó (Maurício Manfrini). Aprendi alguns conceitos básicos de enxergar as coisas. Quando a gente começa a reclamar da situação e das coisas que acontecem. E tem que ver o lado bom da coisa. Está contando piada em uma rádio, está fazendo show, e mesmo que o cachê não seja tão alto, e tem sempre uma pessoa pior. Eu podia estar debaixo do sol batendo uma laje, de pedreiro, fazendo uma obra. Podia estar com essa roupa quente, de segurança da Supervia. Exposto a qualquer outra situação. Mas, se for analisar friamente, contar piada e fazer o que gosta... E são poucos no país que fazem o que gostam. Tem que agradecer às vezes. Nós somos pouco gratos com as coisas. Tudo que eu imaginava e que queria, trabalhar na Patrulha da Cidade, eu realizei. Até recentemente, até 2011, 2012 eu conversava com amigos. Eu tinha esse sonho de um dia ser da Rádio da Patrulha da Cidade. E eu não tem muito o que reclamar.
O palhaço é a pessoa tímida e introspectiva. Às vezes, as pessoas comentam, “O cara é na dele. E no palco ele se solta.” E é aquela coisa da energia. E quando termina o show, geralmente eu termino exausto. É uma troca de energia muito forte que me deixa meio grogue. Mas é gratificante. A coisa que eu avalio quando estou fazendo show, e a casa está cheia, e aquelas pessoas estão ali, e se arrumaram para estar ali, e se planejaram para se divertir com você. E isso é muito gratificante.

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