Sucessão na selva
Depois de muitos anos como o Rei da Selva, o Leão estava resolvido a passar o trono. Só não havia calculado como faria tal coisa. Ele acreditava ter cumprido um ciclo e que não havia sentido tentar transferir o poder para os filhos, que possuíam idades muito abaixo da idade adulta. Embora ainda tivesse algum apego ao cargo, passar a vez se fazia necessário. E o boato desse desejo já fazia algumas mãos se esfregarem de satisfação.
Apesar de suas tendências predatórias, o grande felino havia feito um governo bom em muitos pontos e deixado pouco sangue e carniças pelo caminho, o que desagradava as aves de rapina e outros bichos habituados a se alimentar de restos de gestões anteriores. Os pequenos e médios animais demonstravam gratidão pelo governante por conquistas inéditas e liberdades na história do reino.
No entanto, os grandes (e alguns médios que se pensavam grandes) animais não tinham tanto apreço assim pelo chefe, conservavam mágoa pela forma como a fauna do baixo clero tinha vida boa naquele território. Raposas, Hienas, Lobos, Coiotes, Pumas e outros menos votados começaram a tramar pelas costas do líder e chegaram à conclusão de que deveriam sugerir eleições para o comando. Uma vez que tiveram a ideia, iniciaram um plano, antes de sugerir ao comandante, para ficar com o cargo. O objetivo era chegar já com as cartas marcadas a um possível processo eleitoral.
A primeira coisa que os rebeldes fizeram foi cooptar a Cobra, senhora rastejante, peçonhenta e conhecida por negócios escusos desde a época de Adão e Eva. Como a criatura reptiliana também era conselheira do Leão, e o conhecia muito bem, ela sabia que o monarca tinha grandes chances de indicar o Tigre ou o Leopardo como sucessores. A intenção provavelmente seria deixar a liderança com um felino. Questão de partido.
Dito e feito. Tendo o Leão aceitado - com alguma resistência - a ideia de eleições diretas para o governo da selva, ele indicou mesmo o Tigre, um animal imponente e com experiência de liderança. Tinha até uma fama de generoso e justo no reino, pois abdicava de sua vez em prol dos menos favorecidos. Um gentleman. Era o tipo de qualidade que traria uma impressão de continuidade ao povo.
Mal ouviu o nome do candidato do Rei, a Cobra tratou de levantar um dossiê para minar a imagem do Tigre. Inventou notícias escabrosas sobre a vida do indicado do governo, encomendou pesquisas falsas e implantou no imaginário popular que o melhor seria ter um governante mais parecido com a maioria do povo. Ao mesmo tempo, alimentou picuinhas nos ouvidos do Leão e do Tigre para que eles se perdessem e se desentendessem durante a campanha aos olhos dos eleitores.
Em uma reunião com as Raposas, Hienas, Lobos, Coiotes, Pumas e outros menos votados, para escolher o candidato da oposição, a Cobra os fez perceber que, embora não estivessem satisfeitos com a liderança atual, eles deveriam manter as aparências. O candidato não podia sair daquele grupo. O animal rastejante sugeriu o nome do burro, fazendo os presentes darem olhares de espanto e desaprovação. A serpente explicou que um candidato com a cara do cidadão médio seria sucesso. Além do mais, o burro seria somente um instrumento para chegar ao poder, um testa de ferro, com discursos preparados e aparições coreografadas. Depois de garantir a eleição do animal infame, ela mesma se encarregaria de ditar todos os passos futuros.
Com a campanha começada, a imagem de simplicidade e incorruptibilidade do burro começou a agradar os mais simples, os preguiçosos intelectuais e o núcleo forte do grupo de oposição. Recebidas as orientações, ele seguia fielmente as marcações dadas pela Cobra e pelos cupinchas. O povo aplaudia. Cada vez mais acanhado com a opinião pública e com o efeito do trabalho sujo, o Tigre se apequenava e se escondia na hora de tentar recuperar sua imagem. A cada aplauso, o burro amava mais o seu papel de estrela ascendente. Estava tão confortável no personagem que já ensaiava dar zurros e coices por conta própria. A cobra percebeu isso também, mas preferiu dar de ombros (sentido metafórico, ok?). Só que o burro havia se sentido muito à vontade com a proximidade do poder. Não seguia mais as falas (que falas?), entrava em cena como queria, distribuía patadas em quem quer que fosse e desaparecia ao menor sinal de contrariedade. A impaciência e a inconveniência do burro aumentavam ainda mais a popularidade do equino. Esses gestos eram tomados como demonstração de força. A audiência urrava de prazer a cada grosseria ou gafe. A peçonhenta mantinha-o com o mínimo de cabresto, achando que ele não saberia o que fazer quando se visse como chefe. “Ou alguém já viu um burro picar uma cobra?”, pensou a venenosa. Todavia, o burro já havia aprendido o que era essencial naquela era: o ato de repetir. E já tinha assimilado o suficiente para ecoar discursos por duas gerações. Bastava fazer que nem o malandro do Papagaio. A memória do povo não durava muito.
A eleição só confirmou o que a preparação já denunciava. O burro ganhou logo no primeiro turno com 75%, com o Tigre saindo do pleito de braços dados com a humilhação.
Os sedentos por poder logo se destroem sozinhos. Enxergando o burro como principal mandatário em um futuro próximo, o grupo opositor começou a se denunciar, a plantar armadilhas e mentir para alcançar o posto único de eminência parda do burro. O resultado disso é que o Leão, ainda de posse do poder máximo e com o conhecimento de todo planejamento da traição, mandou trancafiar a corja toda como último ato. As cadeias ficaram lotadas com Raposas, Hienas, Lobos, Coiotes, Pumas e outros menos votados.
Embora com reservas e algum desânimo, o felino reconheceu a vitória do equino, pois julgava que o rival, embora fosse um produto dos desonestos, tinha as patas limpas. E mais: o Leão queria respeitar o resultado das urnas. Como não possuía pescoço para um enforcamento ou uma decapitação, a Cobra foi cortada em várias partes e teve seus pedaços espalhados por cantos estratégicos da selva.
E deu no que deu. Sem nenhum freio, o burro se cercou de jumentos, antas, asnos, cavalos chucros, mulas, jegues e outros agregados para formar sua comitiva. Tomou gosto pelo poder e por dar ordens, por mais que os comandos fossem infrutíferos, vazios. Como era de se esperar, a selva foi passando por um período de crises sem precedentes. Durante essa gestão, incentivados pelo que o burro dizia em seus pronunciamentos, bois tentaram voar, gatinhos se acharam capazes de rugir, quadrúpedes foram convencidos de que podiam ser bípedes e tartarugas velhas acreditaram em uma velocidade inata. E até ratos colocavam jubas sintéticas de leão e soltavam o verbo quando lhes dava na telha. Quando questionavam sua capacidade de governo, o burro sempre argumentava que a culpa era do governo anterior, que precisava de tempo para consertar as coisas. Obviamente esse tempo jamais chegava. Na falta de argumentos, ele sempre partia para a agressão gratuita. E como tinha quem o defendesse, quem gritasse o seu nome, quem acreditasse nele e em suas desculpas, o equino foi ficando no poder, mesmo sem vocação ou sensibilidade nenhuma para gerir massas. Triste dos animais que se cegaram para acreditar que um burro poderia fazer algo diferente de sua natureza.
Sensacional. A fluidez do texto é agradável. E a cobra nem se fala.... Cada vez sua criação e sua criatividade são espetaculares.
ResponderExcluirSem a menor duvida que a nossa realidade politica e as vezes mais provável que a ficção.Inverossímil,improvavel ,inacreditavel
ExcluirUm texto que deixa uma finesse mensagem no ar. Aquela referência que só quem está por dentro do que acontece na "fauna" sabe reconhecer.
ResponderExcluirParabéns ;)