Em tempos de quarentena

Nesses períodos de quarentena, eu tenho acordado tão cedo quanto na época em que tinha que ir ao meu local de trabalho. Dessa vez, o relógio biológico teve que se contentar em ser substituído pela campainha do telefone fixo. Já ia me dirigindo para atender, pensando que só podia ser o Moacyr Franco oferecendo Ômega 3 ou o pessoal de algum presídio que tinha sequestrado novamente um filho que não tenho. Para minha surpresa, a voz que sai do outro lado da linha, embora contenha o seu grau de terror, não era de nenhuma das duas opções imaginadas. 

“Ruuuuuuuuuuuuuuuy! Coooooooooomo você está???”

“L., como você conseguiu esse n... Deixa pra lá! Melhor nem saber”

Aos desavisados de plantão e marinheiros de primeira hora, eu informo a existência de L., a minha perseguidora implacável, a criatura que insiste em burlar a minha certidão de nascimento e a minha carteira de identidade. O incrível dessa ocasião é que nem eu mesmo tinha decorado esse número de telefone fixo, o que me levava cada vez mais ao pensamento de que lido com uma assombração. 

Embora a introdução da ligação parecesse alegre, a tristeza do contato logo veio a se apresentar. 

“A que devo a honra do contato, L.?”

“Ruuuuuuy, podemos pular essas formalidades? Estou triiiiiiiste, muito triiiiiiiiste!!!”

“O que aconteceu? Conte logo, mulher! Eu estou ficando apreensivo”

“Com essa quarentena, todas as igrejas foram fechadas. Eu sempre tenho o hábito de ir no culto da manhã...”

(Prendi uma risadinha)

“O que foi??? Está rindo? Não acredita que eu seja alguém que procure a casa do senhor? Sempre oro por você, Ruy. Peço a Deus que você pare com essa insistência de querer ser outra pessoa, esse André que parece uma entidade do mal na sua vida. Você sempre se transforma quando diz que é ele. E eu falo das minhas angústias, do quanto quero ficar rica, ter um emprego melhor, dos meus sofrimentos, das desilusões...”

(Me concentrando e tentando ser sério ao máximo)

“L., você está desesperada porque não pode frequentar o culto? É isso? A igreja está dentro de você. Talvez se você buscar a leitura e as opções de vídeos de pregação...”

“Você não entende! Eu preciso falar, esbravejar, abrir os braços, espantar os demônios!”

“Tudo se adapta”

“Eu não consigo! Liguei para o pastor e perguntei se eu podia ir à casa dele para dialogarmos. Ou se podia ficar em quarentena com a família dele. Assim nós resolveríamos o problema. Ele pareceu aborrecido e apressou para desligar logo. Insinuou que eu precisava de ajuda. Para isso que eu estava ligando, não é, Ruuuuuuuy? Se faz de ignorante, esse pastor! Aí só me restou pedir um sinal!”

“E esse sinal veio?”

“(Fazendo uma voz de cartomante revelando uma informação bombástica) Sim, só que a palavra do senhor se manifesta de maneiras misteriosas. Tive um sonho nessa última madrugada. É justamente por isso que eu estou ligando para você, meu guru. Quero que você me ajude a desvendar esse enigma”

“Posso tentar. Eu sempre sonhei com uma esfinge que colocasse um “decifra-me ou te devoro” aos meus pés”

“Ah, Ruuuuuuuuuy, sempre pensando em sacanagem! Um pândego, esse Ruy! Enfim, vamos ao que interessa... Eu sonhei que eu estava com todas essas dúvidas, me sentindo desamparada. Escutei um estrondo no céu e olhei rápido para o alto. Com uma tonalidade de chumbo, as nuvens se rasgavam com raios que ficavam dançando em volta dela. Um clarão com algo que parecia uma sombra humana se projetava do interior da nuvem. Eu confesso que quis correr, mas chegou uma voz que, embora eu soubesse que vinha do céu, se projetava muito alta nos meus ouvidos. Quase fiquei surda. Eu tinha entendido que Deus estava ali mandando uma resposta”

(Ela faz uma pausa dramática)

“Você está aí, L.? O que dizia a voz?”

“Calma, Ruuuuuuuy! Estou colocando dra-ma-ti-ci-da-de”

“Continue”

“A voz dizia, “você pediu ajuda?” De forma trêmula e insegura, eu respondia, “Sim. Eu preciso muito de ajuda! O que devo fazer, meu senhor??? Ele dobrou o volume da voz em meus ouvidos, “você quer mesmo ajuda???” Com lágrimas nos olhos, eu disse que queria. Era a resposta do pai da criação. Agora viria o consolo”

(Nova pausa dramática)

“L., fale logo! O que Deus disse?”

“Procure um psiquiatra e um psicólogo, vá às sessões e tome os remédios nas horas certas!”

(Desce o pano!)

Comentários

  1. Adorei , Ruuiuuuiuy. Muito nós ficando loucos nessa prisao domiciliar forçada. So nós falta a tornozeleira

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