Fogo no parquinho
Como já havia falado em uma crônica anterior, eu tenho a necessidade diária de tomar remédios para me colocar no prumo para encarar o cotidiano. Citei alguns anteriormente, mas, como a memória do brasileiro é muito curta, eu me proponho a recolocá-los por aqui. São eles: Hidrocin, Naldecon, Losartana Potássica, Hidrocloratiazida, Dorflex, Montelair e outros que me abstenho de citar para não influenciar mal as crianças.
A verdade é que descobri que esse cocktail começou a me trazer um sono incomum nos últimos tempos. Um torpor capaz de me fazer dormir de pé, no meio de um pagamento de uma conta bancária. Outra característica marcante é que passei a ter sonhos durante esses apagões. E não apenas isso, mas também comecei a viver uma situação incomum. Durante sonhos bem vivos, eu me vejo transportado para o corpo de alguém, do passado ou do presente, tomando atitudes ou vivendo situações capitais no lugar daquele indivíduo. Há uns dias eu fui Telê Santana, mas não consegui mudar o destino; em uma outra situação, eu tinha uma arma apontada para um inocente. Eu já estou me acostumando. Só não sei dizer porque meus medicamentos funcionam como uma espécie de DeLorean de Marty McFly.
Ontem, no período da tarde, eu consumi o último dos remédios. Quando o sono veio, até por estar em quarentena, eu me entreguei espontaneamente. A serenidade chegou fácil com a aceitação. Apaguei.
Acordei em uma sala de reuniões, sentado com um pequeno grupo de pessoas barulhentas com blocos e aparelhos tecnológicos, tomando notas do que eu parecia falar. Passei as mãos pelos cabelos, notei que eles eram encaracolados. Eu também usava óculos. Embora minha voz fosse em um tom arrogante, ela era usada de maneira moderada em termos de volume. Curioso, quis saber de quem era o corpo que eu havia assumido dessa vez. Resolvo ligar a câmera do celular e mirar no meu rosto. Quase soltei um grito quando descobri que tinha “invadido” o Boninho, diretor da Rede Globo. Aproveito também e olho a data. Dia 30/03, 17h25.
Aquela era uma reunião para decidir os rumos do Big Brother 20. Nós (e agora eu podia me incluir) estávamos medindo o número de votos do paredão da décima semana de programa, em uma votação que incluía Prior, Manu e Mari. Estávamos eu, o diretor geral Rodrigo Dourado, o apresentador Tiago Leifert e três assessores. O objetivo era traçar estratégias conforme o resultado da votação.
De repente, um quarto assessor entra esbaforido na sala. Diante dos olhares dos outros convivas, incluindo o diretor e o apresentador, ele espera recuperar o fôlego para me passar alguma informação que parecia relevante.
“Os números chegaram na casa de 512.000.000 de votos”, disse o assessor
“Quem está sendo eliminado?”
“A Manu Gavassi”
“Com quanto?”
“Ela tem 60% dos votos nesse instante”
“E a Mari?”
“A votação dela não chega a 1%”
Olho para Leifert e Dourado e coloco a questão.
“Em um momento tão estranho da política brasileira, não podemos permitir que um machista, misógino e intelectualmente limitado consiga passar dessa fase. É inadmissível!”
“Como assim? Até ontem você estava dizendo que era o melhor resultado para continuar rolando fogo no parquinho”, assustou-se Leifert
“Mudei de ideia! O momento atual pede um programa com pessoas mais sensatas e empáticas”
“Cara, se eu não estivesse aqui olhando para seu rosto, duvidaria que se trata de você. E o fogo no parquinho?”
“Dourado, o que acha de colocar na edição um trecho em que o Prior fala que a torcida do Flamengo é bem menor que a do Corinthians?”
“Pode ser. O problema é que eu não tenho isso”
“Chama o Adnet que ele faz uma imitação. Coloca na dublagem. O povo mal presta atenção no que o Prior diz. Só veem mesmo as confusões que ele apronta”
“E o fogo no parquinho?”, resmungou Leifert
“Quem brinca com fogo sai mijado, rapaz. Ô Dourado, pode colocar também um trecho em que Prior elogia Trump, Bolsonaro, Lula e diz que votaria em Hitler se ele estivesse vivo. Também insere que ele acha que Maradona é melhor que Pelé. E para garantir coloca também que ele acredita em terra plana. E, para fechar mesmo, traz o eleitorado do Kim Jong-Un para votar a favor da Manu”
“E o fogo no parquinho?”, choramingou Leifert
(Quatro horas depois)
“Está tudo feito, Boninho! Já coloquei no site e fiz uma chamada especial no Multishow. A torcida do Flamengo, os eleitores de Lula e Bolsonaro, os alemães e os sul-coreanos estão muito putos com o Prior. Já subiram hashtag no Twitter e já está nos TTs. O Prior vai ser eliminado com 60%!”
“O quê? Tudo o quê? Quem mandou fazer isso? Não fui eu! Está louco! E o fogo no parquinho? Esse cara tem que ficar porque ele é machista, misógino e intelectualmente limitado. Ou seja, ele é o cara desse momento estranho da política brasileira”, diz Boninho
“Você mesmo, Boninho. O Tiago ouviu tudo e...”
“Êêêêêêê, fogo no parquinho!”, geme Leifert
“Você está maluco! Como eu ia mandar fazer uma coisa dessas??? Arrume um jeito de ventilar que Manu é..blá-blá-blá...blá-blá-blá”
(Eu já tinha acordado há umas duas horas. Fui estourar umas pipocas e pegar uma cerveja para ver o fogo no parquinho)

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